Marina no páreo: a evolução natural da política – Amália Safatle

// September 26th, 2009 // Amália Safatle

Quem assistiu à mais recente entrevista da senadora Marina Silva no programa Roda Viva, da TV Cultura (www.iptvcultura.com.br/rodaviva/21-09-2009_MARINA_SILVA/midia/audio.mp3), pôde entender melhor que esta provável candidatura à presidência da República não deverá ser de uma bandeira só.

A jornalistas das áreas política e econômica, e a todo o público que a assistia, a senadora deu respostas que tecem uma completa rede de pensamentos, interligando assuntos relativos a economia, saúde, ética, educação, democracia, energia, transporte, agricultura. E meio ambiente. Marina mostrou toda sua pertinácia ao explicar, com segurança e desenvoltura, que sob o chapéu da sustentabilidade, mesmo que se quisesse, seria impossível bater numa tecla só, pois as diversas questões se entrelaçam naturalmente.

E mostrou que em realidades complexas como a que vivemos sob o céu das mudanças climáticas e de um ambiente que une todo mundo, não cabe mais o dualismo simplista. Alguns assuntos, ou até mesmo a maioria deles, exigem mais que uma discussão do tipo “a favor ou contra”, “certo ou errado”. É o que Marina exemplificou ao dizer que não é contra hidrelétricas na Amazônia – apenas para citar um exemplo -, mas sim a favor de um licenciamento criterioso que precisa respeitar as comunidades ribeirinhas, reduzir o impacto sobre o ambiente, evitar o assoreamento do lago – contribuindo inclusive para a sustentabilidade econômica da obra – e minimizar riscos de uma ocupação desordenada na região, o que traz problemas que os governos, depois, precisarão remediar.

Isso vale para a discussão do transporte, da indústria, da agricultura, do clima. Ou seja, não se trata de ser contra ou favor do crescimento, de criar ou não entraves, mas de rejeitar o fazer-de-qualquer-jeito, esse modus operandi que herdamos dos tempos militares, das políticas de crescimento a qualquer custo (social e ambiental) e de um código de conduta adotado pelas elites econômicas e políticas, baseado mais nos dividendos imediatos e menos na ética. Na ética com as gerações presentes e também com as futuras, que ficarão com a conta das atitudes tomadas agora. E que é um modelo, digamos assim, dos menos inteligentes.

É nessa imensa gradação de cinzas entre o preto e o branco que um projeto de Brasil precisa ser discutido no contexto das próximas eleições. Os últimos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) indicaram que o Brasil reduziu sua desigualdade social e muita gente foi remediada da linha da pobreza. As disparidades ainda são vergonhosas, mas é inegável que um caminho foi trilhado no campo social. No econômico, o Pais foi um dos menos afetados pela turbulência global. No ambiental, temos tudo para protagonizar uma transição à economia verde, descarbonizada e capaz de florescer sem que as suas bases naturais sejam esgotadas – o que inviabilizaria a própria economia no futuro. Mas para isso não basta a adesão de empresas, o ativismo das ONGs, nem a evolução da consciência do cidadão: é preciso uma orquestração política.

A entrada de Marina no páreo não sem tempo acende no Brasil, junto à grande imprensa, a discussão sobre o desenvolvimento sustentável, que dificilmente seria levantada com tanta ênfase e autenticidade pelos demais candidatos. Coloca o Brasil no rol desse grande debate mundial sobre o maior desafio do século. Assim, Marina não apenas mostrou que suas ideias não estão restritas a uma nota só. Ela também nos faz pensar se as ideias dos demais candidatos é que estão limitadas a um passado fóssil.

Amália Safatle é jornalista e fundadora da Página 22, revista mensal sobre sustentabilidade, que tem como proposta interligar os fatos econômicos às questões sociais e ambientais.

Publicado Terra Magazine, 24 de setembro de 2009.

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