A caminho – Toinho Alves
Oct 22nd, 2009 by acaradobrasil
A pergunta é: como manter a esperança, sem alimentar ilusões?
Agora vem Marina com esse chamado, como se ainda desse tempo, como se ainda houvesse jeito –e tanta gente acredita e transfere seus sonhos para outra embarcação, que não posso deixar de me comover. Então vem minha filha Veriana, que daqui a uns dias chega aos vinteanos, e me chama para suas conferências e revoluções comunicativas e culturais, o que me lembra, a um só tempo, que minha descendência neste mundo resulta em inevitável compromisso e que ainda posso ensinar algum ofício, afinal necessário ou ao menos prazeroso, aprendido nas andanças e batalhas d’antanho.
Está bem, vamos.
Reservo-me, porém, o direito de alguma reserva: uma ironia que prometo jamais resvalar para o sarcasmo, boa dose de ceticismo sem a impureza do cinismo, um certo enfado para reuniões já reunidas de conversas já conversadas e distrações freqüentes para olhar a paisagem –afinal, não vim à guerra apenas para guerrear. E não me chamem em dias santos.
Levo comigo uma caneta de ponta muito fina, para desenhar, um velho livro com alguma poesia e a certeza da proteção divina. Faz tempo já me passei para o lado do mistério, mas ainda conheço alguns segredos.
Sou bom na água, melhor na terra. Serei de alguma ajuda.
Toinho Alves (Antônio Alves), jornalista, escritor e poeta. Nas décadas de setenta e oitenta participou dos movimentos socioambientais do Acre e da criação do Partido dos Trabalhadores. Foi presidente da Fundação Cultural Elias Mansour, do Governo do Acre (1998/2002), e assessor da ministra Marina Silva. Hoje é consultor e assessor especial do Governo, integra o grupo de editores do site da Biblioteca Marina Silva e assina o blog “O Espírito da Coisa”.


